Brasília, 8 de julho de 2026.
As mudanças no clima têm ampliado a frequência e a intensidade de eventos extremos, tornando o planejamento urbano um dos principais desafios para a gestão pública. Em junho passado, a National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA) e o Climate Prediction Center (CPC) emitiram oficialmente o status de El Niño Advisory, confirmando o fenômeno e indicando alta probabilidade de intensificação nos próximos meses, com possibilidade de um evento muito forte entre novembro próximo e janeiro de 2027.

Para o Brasil, o cenário exige ações preventivas imediatas. Enquanto a Região Sul pode enfrentar chuvas acima da média e maior risco de enchentes, alagamentos e sobrecarga dos sistemas de drenagem, o Norte pode lidar com redução das chuvas, maior estresse hídrico, aumento da temperatura e maior risco de queimadas, especialmente na Amazônia. No Nordeste, o fenômeno pode favorecer irregularidade das precipitações e déficit hídrico, sobretudo em áreas mais ao norte e no semiárido, reforçando a necessidade de medidas voltadas à segurança hídrica. Já no Sudeste e Centro-Oeste, os efeitos podem incluir maior frequência de ondas de calor, irregularidade das chuvas no início do período chuvoso e episódios localmente intensos de precipitação.
Diante desse contexto, especialistas defendem que o El Niño não seja tratado como uma previsão climática distante, mas como um alerta técnico para orientar decisões concretas, como a revisão de planos de contingência, a manutenção preventiva da infraestrutura para drenagem urbana, a atualização de mapas de risco e a integração entre equipes técnicas e órgãos de defesa civil. A adoção dessas medidas torna-se ainda mais relevante diante da expectativa de extremos simultâneos em diferentes áreas do país, como excesso de chuva no Sul e calor, seca e queimadas em outras regiões.

Na entrevista a seguir, a doutora em meteorologia Rafaella Vilar e ex-presidente da Sociedade Brasileira de Meteorologia (SBMet), entidade integrante do Sistema Confea/Crea, explica como a integração entre meteorologia, geociências, engenharia e gestão pública fortalece o planejamento territorial e reduz a vulnerabilidade das cidades aos desastres climáticos. A especialista em meteorologia que atua na Echoenergia em São Paulo também destaca a importância de utilizar dados meteorológicos e hidrológicos para orientar investimentos em infraestrutura, modernizar os planos diretores e evitar que tragédias como as enchentes registradas no Rio Grande do Sul, em 2024, voltem a se repetir.
Confea: Evidências mostram que cada dólar investido em mitigação pode evitar perdas futuras quatro vezes maiores com os custos de reconstrução. Como profissionais das geociências e da engenharia podem atuar em conjunto com o poder público municipal para desenhar planos diretores que sejam, de fato, resilientes às crises climáticas?
Rafaella Vilar: A atuação conjunta dos profissionais das geociências e da engenharia é essencial para transformar o plano diretor em um instrumento efetivo de prevenção, e não apenas de ordenamento territorial formal. As geociências contribuem com a leitura física do território: identificação de áreas suscetíveis a inundações, enxurradas, deslizamentos, erosão, ilhas de calor, déficit hídrico e outros riscos associados a eventos extremos. A engenharia, por sua vez, traduz esse diagnóstico em soluções técnicas, como obras de drenagem, contenção, saneamento, mobilidade, infraestrutura verde, habitação segura e sistemas de alerta e resposta. Para que os planos diretores sejam, de fato, resilientes às crises climáticas, é necessário que o município incorpore dados meteorológicos, hidrológicos, geológicos e socioeconômicos ao processo de planejamento urbano. Isso significa atualizar mapas de risco, revisar zoneamentos, restringir ocupações em áreas vulneráveis, proteger áreas de várzea e drenagem natural, prever rotas de evacuação, dimensionar infraestruturas considerando cenários climáticos mais extremos e priorizar populações em situação de maior vulnerabilidade. O ponto central é que a gestão de risco precisa deixar de ser reativa. O custo de reconstruir uma cidade após um desastre é muito superior ao custo de planejar corretamente antes que ele aconteça. Quando meteorologistas, geólogos, geógrafos, engenheiros civis, ambientais, sanitaristas e gestores públicos atuam de forma integrada, o município passa a tomar decisões com base em evidências, reduzindo perdas humanas, sociais, ambientais e econômicas. Além disso, o plano diretor deve dialogar com outros instrumentos municipais, como planos de drenagem urbana, defesa civil, saneamento básico, habitação, mobilidade e adaptação climática. A resiliência não depende apenas de grandes obras, mas também de governança, manutenção contínua da infraestrutura, fiscalização do uso do solo, educação para prevenção e integração entre os diferentes níveis de governo.
A prevenção salva vidas e reduz prejuízos, mas exige continuidade, investimento técnico e decisão política antes da emergência
Confea: Sabendo que o El Niño 2026/2027 projeta um aumento de precipitações na região Sul, qual o papel que o planejamento preventivo baseado em dados meteorológicos tem para evitar o colapso da infraestrutura de macrodrenagem urbana e sistemas de contenção de cheias, mitigando desastres por enchentes severas como as que castigaram a região em 2024?

Rafaella Vilar: O planejamento preventivo baseado em dados meteorológicos é fundamental porque permite que o poder público antecipe cenários de risco e tome decisões antes que o evento extremo se transforme em desastre. No caso do El Niño, a tendência de aumento das chuvas na Região Sul exige atenção especial, pois a combinação entre precipitações persistentes, solos saturados, rios elevados e infraestrutura urbana subdimensionada pode levar ao colapso dos sistemas de macrodrenagem, contenção de cheias e mobilidade urbana. Os dados meteorológicos e hidrológicos permitem acompanhar a evolução do fenômeno, estimar períodos de maior risco, identificar bacias hidrográficas mais vulneráveis e orientar ações como limpeza e desobstrução de canais, manutenção de galerias pluviais, inspeção de barragens, revisão de sistemas de bombeamento, reforço de taludes, monitoramento de encostas e preparação de planos de contingência. Essas ações são mais eficientes quando realizadas antes do período crítico, e não durante a emergência. Também é importante destacar que o desastre não é causado apenas pela chuva intensa. A chuva é o gatilho, mas a magnitude do impacto depende da vulnerabilidade construída ao longo do tempo: ocupação de áreas inundáveis, impermeabilização excessiva do solo, supressão de áreas naturais de retenção, falta de manutenção da drenagem, ausência de integração entre municípios de uma mesma bacia e baixa capacidade institucional de resposta. Por isso, o planejamento deve ser feito em escala municipal e regional, especialmente em bacias hidrográficas compartilhadas. A água não respeita limites administrativos. Um município pode sofrer impactos decorrentes de decisões tomadas a montante, como ocupação irregular, canalização inadequada, impermeabilização acelerada ou ausência de áreas de amortecimento de cheias. Assim, a gestão de risco precisa integrar meteorologia, hidrologia, engenharia urbana, defesa civil e planejamento territorial. Os eventos de 2024 no Rio Grande do Sul evidenciaram que infraestruturas projetadas com base em séries históricas passadas podem não ser suficientes diante de extremos climáticos mais frequentes e intensos. Portanto, o planejamento preventivo deve considerar cenários atualizados, incorporar margens de segurança, soluções baseadas na natureza, sistemas de alerta precoce e protocolos de resposta rápida.
Acompanhe o Painel El Niño 2026-2027, do Governo Federal
Julianna Curado
Equipe de Comunicação do Confea
Foto: Acervo pessoal
